Na capital da Lombardia, o design se encontra com a história. Muito além das passarelas da moda, está uma metrópole vibrante que pulsa entre catedrais góticas, aperitivos ao pôr do sol e uma logística que a torna a porta de entrada perfeita para a Itália

Milão é uma cidade de contrastes que se harmonizam sob uma personalidade de elegância absoluta. Capital incontestável da moda e do design, a metrópole do norte da Itália vai muito além das vitrines sofisticadas do Quadrilátero della Moda ou do movimento cosmopolita de seus distritos financeiros. Entre o brilho dos desfiles e a agitação boêmia dos canais de Navigli, Milão revela-se um museu a céu aberto: das agulhas de mármore do Duomo — uma das maiores catedrais góticas do mundo — aos tesouros renascentistas como A Última Ceia, de Da Vinci, cada esquina narra a história de uma cidade que aprendeu a ditar tendências sem jamais esquecer suas raízes.

Essa vocação para o protagonismo não é recente. Fundada por tribos celtas por volta de 400 a.C. e rebatizada como Mediolano pelos romanos em 196 a.C., Milão sempre foi um ponto de poder. Por sua localização estratégica, chegou a substituir Roma como capital do Império Ocidental no século 4, período marcado pelo Édito de Milão e pela influência de Santo Ambrósio. Após sobreviver a saques de hunos e ostrogodos, a cidade renasceu sob o domínio carolíngio e consolidou-se, na Idade Média, como um próspero centro têxtil e comercial, tornando-se palco de coroação para imperadores do Sacro Império Romano-Germânico.

A identidade milanesa foi forjada entre as ambições de grandes dinastias e ocupações estrangeiras. Enquanto as famílias Visconti e Sforza transformavam o Ducado de Milão em uma potência cultural no Renascimento — atraindo gênios como Leonardo da Vinci e Bramante —, a cidade também enfrentava séculos de alternância entre os domínios espanhol, austríaco e as conquistas napoleônicas. Foi sob a regência austríaca que a urbanização ganhou contornos modernos, mas o espírito rebelde dos milaneses falou mais alto no século 19, quando Milão se tornou um dos principais focos do nacionalismo que culminaria na unificação da Itália.

No século 20, extremos da história: Milão foi o berço do fascismo de Mussolini, mas também o coração da resistência operária que ajudou a derrubar o regime. Hoje, reconstruída após a Segunda Guerra, a cidade pulsa como um motor econômico e industrial do país. 

Seja explorando o modernista Bosco Verticale, pedalando em uma bike elétrica pelo Parque Sempione ou saboreando uma autêntica massa em Brera, o visitante logo percebe que Milão não apenas sobreviveu ao tempo – o refinou, transformando séculos de invasões e glórias em uma metrópole vibrante e magnética.

O que fazer

Duomo

Se Milão é a capital italiana da moda e do design, a Praça do Duomo (Piazza del Duomo) é o palco onde toda essa energia converge. Muito mais do que um ponto geográfico, a praça no Centro é parada obrigatória mesmo para quem tem apenas algumas horas de conexão na cidade.

Dominando o cenário com sua fachada em mármore, a catedral Duomo de Milão é uma obra-prima do gótico que levou seis séculos para ser concluída. Embora sua magnitude externa renda fotos dignas de porta-retrato, o verdadeiro segredo reside no alto. Subir aos terraços da catedral permite caminhar por entre agulhas e estátuas milenares, com uma das vistas mais espetaculares da Europa a partir do telhado.

A experiência no lugar vai além dos monumentos. A praça é um organismo vivo onde o comércio se mistura a eventos artísticos e ao cotidiano dos milaneses. Ao redor, as opções são vastas. Na gastronomia, cafés e restaurantes com mesas ao ar livre, ideais para um aperitivo e, na vizinhança, o Palazzo Reale e o Palazzo dei Portici enriquecem o roteiro histórico.

O acesso é simples e direto. Seja em uma caminhada pelas ruas charmosas do entorno ou desembarcando na estação de metrô que leva o nome da praça, todos os caminhos levam ao Duomo.

Galleria Vittorio Emanuele II

A poucos passos da catedral de Duomo, a elegância ganha forma na Galleria Vittorio Emanuele II. Este centro comercial abriga algumas das grifes mais luxuosas do mundo e cafés históricos. É o local perfeito para o tradicional rituale del caffè, enquanto se observa o movimento efervescente da praça.

Se Milão é a capital mundial da moda, a Galleria Vittorio Emanuele II é a sua passarela mais reluzente. Conhecida carinhosamente pelos locais como Il Salotto di Milano (o salão de Milão), a galeria é um triunfo arquitetônico do século 19 que une a imponente catedral e o lendário Teatro alla Scala.

Construída entre 1865 e 1877, impressiona pelo design audacioso de dois arcos perpendiculares, coroados por uma abóbada de ferro e vidro. Ao caminhar sob a cúpula, o visitante é cercado por vitrines de grifes como Prada, Gucci e Louis Vuitton, que dividem espaço com comércios tradicionais e joias escondidas da cidade.

Antes de sair, reserve um momento para contemplar a arte que emoldura o passeio. No teto da abóbada central, mosaicos extraordinários rendem homenagem a Ásia, África, Europa e América.

No chão do octógono central, está o mosaico do escudo familiar dos Savoia, que estampa um famoso touro. Reza a lenda que dar uma volta completa sobre o animal, com o pé direito e os olhos fechados, garante sorte imediata. E se você estiver por lá na virada do ano, anote a dica: realizar o ritual exatamente à meia-noite do dia 31 de dezembro promete estender essa fortuna por todo o ano novo.

A experiência gastronômica na Galleria é um capítulo à parte. É possível viajar no tempo em estabelecimentos como o Café Biffi, fundado em 1867, ou desfrutar a culinária nos charmosos terraços que observam o movimento incessante dos turistas. Até o McDonald’s local se rendeu ao código de vestimenta milanês. Para harmonizar com a sofisticação do entorno, a rede adotou uma fachada exclusiva em preto e dourado.

Castello Sforzesco

As muralhas do Castello Sforzesco são o testemunho vivo do poder e da resiliência de Milão. Localizado a poucos passos do Centro, este complexo fortificado é um portal que transporta o visitante da Idade Média ao Renascimento em poucos passos.

Idealizado por Francesco Sforza no século 15 sobre as ruínas de uma fortaleza medieval, o castelo já foi de tudo: residência ducal de luxo, quartel militar e até base para exércitos estrangeiros.

Por seus pátios circularam figuras como Napoleão Bonaparte e gênios como Leonardo da Vinci. Hoje, após sobreviver a cercos e aos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, o Castello se consolidou como um dos maiores centros culturais da Itália.

Por fora, a arquitetura impressiona com suas torres robustas, fossos e passagens subterrâneas. Por dentro, o cenário se transforma em um labirinto de saber. Dividido em quatro andares, o Castello abriga museus que cobrem desde a pré-história até a arte moderna.

Entre os tesouros, destacam-se: a Sala delle Asse, onde o teto ostenta afrescos projetados por Da Vinci, o Museu da Piedade Rondanini, lar da última obra inacabada de Michelangelo, e a Pinacoteca, com telas de mestres como Tintoretto, Mantegna e Tiziano. Também estão aí museus dedicados a instrumentos musicais, móveis antigos e até um rico acervo egípcio.

A entrada nas dependências externas e pátios do castelo é gratuita. É o cenário perfeito para aquela foto em frente à Fonte da Piazza Castello antes de seguir para um descanso no vizinho Parque Sempione, que fica literalmente colado à fortificação.

Parque Sempione

O Parque Sempione é o local onde Milão finalmente permite-se respirar. Localizado estrategicamente atrás do Castello Sforzesco, este jardim de 47 hectares em estilo inglês não é apenas um refúgio para quem busca sombra e água fresca – é o quintal social dos milaneses e um museu a céu aberto que merece um espaço generoso no roteiro dos que chegam para conhecer a cidade.

Caminhar pelo Sempione é mergulhar em uma paisagem que se transforma com o calendário. No verão, o parque vibra. Os gramados recebem piqueniques entre amigos, apresentações musicais e eventos culturais que estendem o movimento até o pôr do sol. Nas estações mais amenas, as trilhas arborizadas e os pequenos lagos artificiais são o cenário para uma corrida matinal ou uma leitura silenciosa sob o balanço dos salgueiros.

O que diferencia o Sempione de um parque comum é a densidade histórica de seus monumentos. Por seus caminhos, estão marcos que contam a trajetória da Itália:

– Arco da Paz (Arco della Pace), obra-prima neoclássica de 1838. Localizado no final do parque, o arco marca o início do Corso Sempione e impressiona pela riqueza de suas estátuas e relevos.

– A Torre Branca, de 108 metros, é parada obrigatória. Um elevador leva os visitantes ao topo, oferecendo uma vista panorâmica. Em dias claros, é possível avistar até os Alpes.

– La Triennale di Milano é o templo do design e das artes aplicadas. Um museu essencial para entender por que Milão é referência mundial em estética e inovação.

– Arena Civica: inaugurada em 1807 com a presença de Napoleão Bonaparte, esta joia arquitetônica que remete aos anfiteatros romanos hoje sedia competições de atletismo e shows internacionais.

Quadrilatero della Moda

Se Milão é o coração pulsante da moda global, o Quadrilatero della Moda é sua artéria principal. Para o viajante que desembarca na capital da Lombardia, este conjunto de ruas, mais que destino de compras, é um museu a céu aberto do luxo, onde as vitrines ditam o que o mundo vestirá nas próximas estações.

O nome não é força de expressão. A área é geometricamente delimitada por quatro vias principais que concentram o maior PIB fashion por metro quadrado do planeta: Via Montenapoleone, Via della Spiga, Via Manzoni e Corso Venezia.

Caminhar por ali, a poucos passos de ícones como o Duomo e a Galleria Vittorio Emanuele II, é cruzar o caminho da elite internacional. Entre as fachadas históricas, não é raro avistar estrelas de cinema, grandes empresários e astros do futebol desfilando sacolas de grifes como Gucci, Prada, Armani, Valentino e Versace.

A Via Montenapoleone figura constantemente no ranking das dez ruas mais luxuosas do mundo, rivalizando diretamente com a Champs-Élysées, de Paris, e a Quinta Avenida, de Nova York.

Se o objetivo é renovar o closet, o calendário milanês é o melhor amigo. As famosas liquidações italianas têm datas rigorosas para começar: no inverno, o primeiro sábado de janeiro e, no verão, o primeiro sábado de julho.

As promoções costumam durar cerca de 60 dias, transformando o Quadrilátero em um campo de batalha — muito elegante, por sinal — para os caçadores de tendências.

Piazza dela Scala

Basta atravessar o “salão de festas” da cidade (a Galleria Vittorio Emanuele II) para desembocar em um espaço que respira intelecto, arte e poder civil – a Piazza della Scala. Dominando a praça com uma sobriedade neoclássica que esconde a grandiosidade de seu interior, o Teatro alla Scala é protagonista.

Inaugurado em 1778, não é apenas uma casa de ópera – é o templo máximo da lírica mundial. Observar sua fachada discreta é um exercício de elegância milanesa: a verdadeira riqueza se revela nos detalhes e na história de quem já pisou aquele palco, de Verdi a Maria Callas.

No centro da praça, imperturbável diante do fluxo de turistas e executivos, está o Monumento a Leonardo da Vinci. Esculpida por Pietro Magni em 1872, a estátua apresenta o mestre renascentista cercado por quatro de seus discípulos.

A harmonia arquitetônica do local é completada por dois gigantes:

– Palazzo Marino: situado logo em frente ao teatro, este palácio do século 16 é a sede da prefeitura. A fachada renascentista e os pátios internos representam o poder cívico e o artesanato refinado da Itália.

– Palazzi delle Gallerie d’Italia: antigas sedes bancárias que hoje abrigam um acervo artístico invejável, conectando a praça ao circuito das grandes galerias, como a Pinacoteca de Brera.

Visitar a Piazza della Scala é mergulhar no lifestyle local. É o lugar perfeito para um espresso rápido entre uma visita cultural e outra, observando o movimento dos artistas de rua e o vaivém elegante dos milaneses. A praça resume o espírito da cidade: beleza, criatividade a tradição inabalável.

Bosco Verticale

No coração do bairro de Porta Nuova, onde o vidro e o aço definem a nova silhueta de Milão, um monumento vivo rouba a cena e redefine o conceito de selva de pedra. O Bosco Verticale, projetado pelo escritório Boeri Studio, é um manifesto arquitetônico que prova ao mundo ser possível trazer a floresta para o centro da metrópole.

Inaugurado em 2014, o complexo é formado por duas torres de 76 e 110 metros que abrigam uma biodiversidade impressionante. São cerca de 900 árvores, 4,5 mil arbustos e 15 mil plantas que, se espalhadas horizontalmente, ocupariam uma área equivalente a 40 mil metros quadrados de floresta — quase seis campos de futebol comprimidos em duas torres residenciais.

Um deleite visual, a vegetação também funciona como pele viva. Cada espécie foi escolhida a dedo e pré-cultivada por dois anos em viveiros para garantir que suportariam os ventos e a exposição solar de Milão.

Para o viajante que caminha pela Piazza Gae Aulenti, o Bosco Verticale nunca é o mesmo. O edifício é um organismo mutável. No verão, as copas densas criam um microclima que reduz a temperatura interna em até 3°C, filtrando partículas de poeira e absorvendo CO². No inverno, com a queda das folhas, a luz solar penetra livremente nos 113 apartamentos, garantindo luminosidade e conforto térmico.

Além do cinturão verde, as torres são equipadas com painéis fotovoltaicos que auxiliam na autossuficiência energética, consolidando o edifício como um case de sucesso em design biofílico. O Bosco Verticale não apenas observa a cidade; ele a limpa, a resfria e a protege, provando que o futuro do turismo e da habitação urbana é, obrigatoriamente, verde.

O projeto já recebeu o título de arranha-céu mais bonito e inovador do mundo pelo International Highrise Award, superando 800 concorrentes globais. Viver aí é a síntese do luxo contemporâneo: ter à disposição a tecnologia de uma cidade inteligente e, ao abrir a janela, ouvir o canto de pássaros que encontraram um novo refúgio urbano.

Brera e Porta Garibaldi

Milão é uma cidade de camadas, onde o passado e o amanhã convivem a poucos passos de distância. E nenhum trajeto é tão emblemático quanto a transição entre o charme boêmio de Brera e a sofisticação arrojada de Porta Garibaldi.

A jornada começa nas ruas de paralelepípedos de Brera. Mais do que um bairro, é um estado de espírito. Entre lojas de design, perfumarias artesanais e bares, o local convida a um caminhar sem pressa. 

Não pode faltar a ida à Pinacoteca de Brera. Instalada em um antigo convento do século 14, a galeria é um santuário para os amantes da arte, abrigando obras-primas de gênios como Rafael, Caravaggio e Piero della Francesca.

Ao final da tarde, o bairro se transforma. É a hora do sagrado aperitivo italiano. As mesas nas calçadas se enchem de copos vibrantes de Aperol Spritz, marcando o início da vida noturna milanesa em um cenário que parece ter parado no tempo.

Seguindo pela longa e movimentada Corso Garibaldi, o cenário começa a mudar. Se Brera é a Milão clássica, a região de Porta Garibaldi é o portal para a modernidade. O bairro serve de conexão entre o centro histórico e o futurista distrito de Porta Nuova.

Embora menos densa em monumentos tradicionais, a Porta Garibaldi oferece um turismo de estilo de vida. É um lugar para guardar o celular e observar o movimento. No Largo la Foppa, o olhar é imediatamente atraído pelo mural da Gucci, tela urbana que muda constantemente, refletindo o dinamismo da moda local.

O símbolo do bairro é o arco neoclássico, construído originalmente para homenagear Francisco I da Áustria, em 1825 e, mais tarde, rededicado ao herói Giuseppe Garibaldi. A poucos metros, a história dá lugar ao aço e ao vidro da Piazza Gae Aulenti. Caminhar por aqui é testemunhar a Milão que dita tendências globais. Atualmente, Porta Garibaldi também é um dos distritos da cidade.

Convento Santa Maria de la Grace – A Última Ceia

Em Milão, existe um endereço onde o tempo parece pausar para reverenciar o gênio humano: a Igreja Santa Maria delle Grazie. Mais do que um templo de arquitetura renascentista deslumbrante, o complexo abriga o que muitos consideram a pintura mais influente de todos os tempos: A Última Ceia, de Leonardo da Vinci.

A história desse Patrimônio Mundial da UNESCO começa com a ambição de Francesco Sforza. O então Duque de Milão desejava transformar uma pequena capela no mausoléu de sua linhagem. Para isso, convocou o arquiteto Guiniforte Solari para erguer o convento dominicano e a igreja, mas foi o envolvimento de Da Vinci que elevou o local ao status de santuário das artes.

Pintado entre 1494 e 1498 nas paredes do refeitório do convento, o afresco de dimensões monumentais — 4,6 metros de altura por 8,8 metros de largura — captura o exato momento em que Jesus anuncia que será traído. A carga dramática e o realismo psicológico dos apóstolos inauguraram uma nova era na história da arte, fruto de anos de esboços e estudos minuciosos de Leonardo.

Estar diante desta obra é uma experiência exclusiva e, por que não dizer, emocionante. Devido à fragilidade do afresco e aos rigorosos controles de conservação, as visitas são milimetricamente organizadas: apenas 35 pessoas por vez, com 15 minutos de imersão total no refeitório.

As vagas costumam esgotar com meses de antecedência. A recomendação para o viajante é garantir sua reserva com, no mínimo, 60 dias antes do passeio. Mesmo que você não consiga ingressos para o cenáculo, não ignore a Igreja de Santa Maria delle Grazie. Sua arquitetura é uma aula viva de história e seu interior guarda afrescos e esculturas que, por si só, já valeriam a visita.

Navigli

O bairro de Navigli é onde Milão finalmente solta o nó da gravata. Cortado por canais históricos que remontam ao século 12, esse distrito converteu seu passado industrial em um presente vibrante, tornando-se o refúgio preferido de artistas, jovens e viajantes em busca da verdadeira vida milanesa.

Não se pode falar de Navigli sem mencionar o happy hour. Entre as 18h e as 21h, as margens dos canais se transformam em uma imensa sala de estar a céu aberto. O conceito é simples e irresistível: ao pedir um drink — sendo o Aperol Spritz o rei absoluto da hora dourada — muitos estabelecimentos oferecem uma seleção de petiscos que variam de bruschettas a buffets completos. É o momento de celebrar o pôr do sol enquanto as luzes dos bares começam a refletir nas águas do Naviglio Grande.

Originalmente construídos para irrigação e transporte de mercadorias — incluindo o mármore usado na construção do Duomo — os canais hoje servem como cenário para passeios românticos de barco e descobertas históricas.

O Vicolo dei Lavandai é um mergulho na nostalgia. Este “beco dos lavadeiros” preserva os tanques de pedra onde homens (sim, no século 19 o serviço era predominantemente masculino) lavavam roupas.

Nas duas margens, o Naviglio Grande (o mais antigo) e o Naviglio Pavese ditam o ritmo do bairro. Durante o dia, o visitante pode explorar as galerias de arte alternativa e perder-se pelas charmosas Via Corsico e Via Vigevano.

Embora a primavera e o verão sejam as épocas mais movimentadas, o bairro mantém seu charme no outono. No inverno, os canais podem estar vazios para manutenção, mas os bares aquecidos garantem o acolhimento necessário.

Para aproveitar, esqueça o salto alto – as ruas de pedras irregulares e desníveis históricos são inimigas da elegância desconfortável. Vá de tênis ou sapatos baixos. A proximidade com a água traz convidados indesejados. Se visitar o bairro entre o final da primavera e o verão, o repelente é item obrigatório.

E, se o clima fluvial te conquistar, aproveite a proximidade para um bate-volta ao Lago de Como. Cidades como Varenna e Bellagio oferecem um contraste de serenidade que complementa a agitação de Navigli.

Onde comer

Osteria da Fortunata

Milão pode até ser a capital do design e do luxo, mas quando o assunto é conforto no prato, a cidade se rende a uma lenda que veio de Roma. A Osteria da Fortunata não é apenas um restaurante – é um espetáculo de autenticidade que começou em 1921 com a matriarca Fortunata e hoje se expande pelo mundo sem perder a essência do fatto a mano.

O que primeiro chama a atenção de quem caminha pelo charmoso distrito de Brera não é um menu impresso, mas sim a vitrine. Ali, livres de publicidade e cheias de orgulho, massas frescas são moldadas em tempo real diante dos olhos curiosos de quem passa. É um convite visual impossível de ignorar.

No comando dessa herança está a sabedoria da vovó Iris, que personifica a dedicação ao artesanato culinário, garantindo que o tomate, a batata e a farinha mantenham o padrão de excelência de um século atrás. É a gastronomia mediterrânea em sua forma mais pura: ingredientes de cultivo próprio e respeito absoluto ao tempo das receitas.

Prepare o espírito (e as pernas), pois conseguir uma mesa na Fortunata é um desafio que testa a paciência dos turistas e locais. A fila na porta é uma constante desde a abertura até o último cliente, mas o esforço é recompensado no primeiro garfo.

Diferente da formalidade milanesa, aqui o clima é acolhedor, descontraído e vibrante. O espaço é íntimo — o que dificulta grandes grupos — mas compensa com um serviço simpático e uma atmosfera que faz o cliente se sentir parte da família.

Entre os pratos, o Tagliolino Cacio e Pepe é um destaque. A massa caseira, servida com um molho cremoso, é uma celebração da técnica romana em solo milanês.

Panzeroti Luini

Se existe um ritual que une turistas apressados e moradores em seu intervalo de almoço, ele atende pelo nome de Panzerotti Luini. Localizado a poucos passos da catedral Duomo, escondido em uma ruela, essa pequena lanchonete é um patrimônio histórico fundado em 1949.

Embora o panzerotto seja uma iguaria originária da Apúlia, no sul da Itália, foi a família Luini quem o transformou no sinônimo definitivo de comida de rua milanesa. À primeira vista, ele lembra um mini calzone em formato de meia-lua, feito com uma massa leve que remete à de pizza.

A dúvida de quem chega ao balcão é sempre a mesma: assado ou frito? O recheio mais tradicional é o de tomate com mozzarella, mas não há comparação com o queijo conhecido no Brasil. A mozzarella italiana utilizada aqui é fresca, cremosa e derrete de forma única.

O Luini é “pegar e levar”. O espaço é minúsculo e não há mesas, então o charme está em garantir o pacote de papel e devorar o lanche ainda quente, ali mesmo na calçada, ou caminhando entre as vitrines do centro.

Quase sempre haverá uma fila quilométrica na porta, mas ela anda rápido e o aroma que sai da cozinha serve como o melhor estímulo. O panzerotto é relativamente pequeno. Para evitar o arrependimento e uma nova volta à fila, peça pelo menos dois (um frito e um assado é a melhor estratégia). Um pequeno detalhe para não errar no pedido — panzerotto é o singular; panzerotti é o plural, variações do mesmo tema: uma das refeições mais autênticas da viagem.

Onde se hospedar

B&B Hotel Milano City Center Duomo

Escolher a base certa em Milão é o primeiro passo para ditar o ritmo da viagem. Enquanto o charmoso bairro de Brera atrai os amantes do design e Navigli ferve com a vida noturna às margens dos canais, o Centro Histórico continua sendo a escolha imbatível para quem tem pouco tempo e quer vivenciar a grandiosidade da capital da moda a pé.

Para o viajante que busca conforto sem abrir mão de uma localização privilegiada, o B&B Hotel Milano City Center Duomo se sobressai como um porto seguro. Situado em um ponto estratégico, o hotel permite que o hóspede tome o café da manhã e, em menos de dez minutos de caminhada, esteja diante da Piazza del Duomo ou admirando as vitrines da Galleria Vittorio Emanuele II.

A logística é o maior trunfo do hotel, que está cercado pelo Castello Sforzesco, o Teatro alla Scala e a igreja de Santa Maria delle Grazie. A três minutos da estação de metrô Cairoli e da parada de bonde Via Cusani, o deslocamento para áreas mais distantes da cidade torna-se simples e rápido.

Com uma proposta moderna e focada no custo-benefício, o hotel oferece 59 quartos equipados com Wi-Fi gratuito de alta velocidade, ar-condicionado, cofres para notebooks e um ambiente totalmente voltado para não fumantes.

O destaque vai para o terraço coberto, espaço para planejar o roteiro do dia, e encontrar a hospitalidade da equipe, frequentemente elogiada pelos hóspedes. Para quem não dispensa a gastronomia local, na vizinhança fica o restaurante Aldente, a poucos metros de distância, que oferece um mergulho na culinária italiana tradicional logo após o check-in.

A localização é tão bem avaliada que casais costumam dar nota 9,6 para estadias a dois. É a escolha certa para quem quer acordar cedo e fotografar a catedral antes da chegada das multidões de turistas.

Como chegar 

Cosmopolita e estrategicamente bem localizada, a cidade no norte da Itália é uma das portas de entrada mais eficientes para quem deseja explorar o Velho Continente. A boa notícia para os viajantes brasileiros é que o bilhete de embarque para esse centro de design e história está a apenas um voo de distância.

Para quem preza pela conveniência, a Latam opera voos diretos partindo do Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU) rumo ao Aeroporto de Milão-Malpensa (MXP). Esta é a forma mais rápida de começar a jornada italiana.

Outra alternativa é voar diretamente para Roma — com saídas de São Paulo e Rio de Janeiro — e de lá seguir para o norte. Se a ideia é fazer um tour europeu antes de chegar à Lombardia, companhias como TAP (via Lisboa), Iberia (via Madri) e KLM (via Amsterdã) oferecem conexões frequentes que ligam o Brasil a Milão com apenas uma parada.

Se você já estiver circulando pela Europa, fique atento aos aeroportos secundários. Enquanto o Linate (LIN) é o queridinho pela proximidade (a  apenas nove quilômetros do centro), o aeroporto de Bérgamo (BGY) é a base principal das companhias low cost, oferecendo passagens por preços imbatíveis.

Localizado a 52 quilômetros do centro, o Aeroporto de Malpensa oferece opções para todos os perfis de viajantes:

– Malpensa Express: a opção mais inteligente para evitar o trânsito. O trem liga o aeroporto à estação Milano Centrale em cerca de 51 minutos. As partidas ocorrem a cada meia hora.

– Ônibus executivos: empresas como Terravision e Malpensa Shuttle operam trajetos diretos até a Estação Central. É uma escolha econômica e com saídas frequentes (a cada 20 minutos em horários de pico).

– Conforto particular: para quem viaja em grupo ou com muitas malas, o transfer privativo garante o desembarque na porta do hotel. Já os táxis possuem tarifa fixa para o trajeto até o centro.